Será?

Será (mesmo) que você conhece a sua empresa?

Estava conversando com o dono de uma clínica recentemente e ouvi ele dizer “Eu estou nesse negócio há pelo menos 20 anos, é claro que eu conheço tudo em minha clínica”. Fiquei pensando: será?

É natural que donos de pequenas e médias empresas |clínicas, cultivem a ideia de que conhecem suas empresas completamente. A relação emocional profunda, o tempo lidando com os problemas e a relação com clientes e pessoas produzem essa sensação de familiaridade. Porém, cabe a reflexão crítica de que estes mesmos elementos podem cultivar também um olhar viciado, que abre pouco espaço para a dúvida, curiosidade e para o subjetivo por trás da forma de ver o mundo.

A história da maioria dos médicos que fundaram uma clínica, é bem parecida. Surge uma ideia, uma visão e, com perseverança e paixão, são investidos vida e patrimônio na transformação dessa ideia em negócio. A clínica cresce, novas pessoas são incluídas, novos jeitos de fazer as atividades são criados e novos tipos de problema vão surgindo também.

E aqui mora um desafio crucial para os donos: Compreender que a mudança de tamanho e complexidade do negócio, pede também uma mudança no jeito de ver o negócio, o mercado, seus problemas e de criar as soluções. Isso é um desafio porque o sócio frequentemente é forjado na capacidade de resolver problemas e enfrentar adversidades. O que por um lado garante crescimento, mas por outro, nutre a falsa sensação de que se sabe tudo, se compreende tudo e se pode tudo – em todos os tempos.

Uma inverdade que pode ser bem perigosa. E, veja, não se trata de uma apologia a falta de conhecimento, mas uma advertência à sensação de conhecimento profundo ao tipo de conhecimento que realmente importa em cada momento e estágio do negócio.

Mas por que isso é ruim?

O primeiro motivo é a falta de incentivo na criação de processos e comportamentos formais de busca de informações e conhecimento. É comum em clínicas onde reina a sensação de conhecimento, que pouco se invista na produção de novos conhecimentos. Seja sobre o mercado, sobre o cliente e sobre o produto ou serviço que se entrega. Já conheci clínicas nascidas de grandes ideias, baseadas justamente na perspicácia de um olhar diferente sobre o cliente, mas que ao longo do tempo, deixou de lado essa prática e foi ficando de fora do mercado por não avançar junto com ele.

Também é comum que tal comportamento normalize o controle e a centralização, tanto na tomada de decisão, quanto na realização do trabalho. Afinal de contas, o conhecimento que existe vem acompanhado da ideia de que alguém sabe tudo e não é preciso conhecer mais nada. Já vi diversos empresários relutarem em admitir que seu olhar era incompleto e, por conta disso, impediram que outras pessoas decidissem ou tivessem autonomia. Mais do que isso, anulavam qualquer um com uma visão crítica sobre o negócio ou ideia nova para implantar.

Outro efeito muito comum decorrente da sensação e centralização do conhecimento é o boicote ao desenvolvimento e aprendizado das pessoas, principalmente porque retira delas o desejo por buscar informações e conhecimentos para solucionar os problemas. Com o tempo, as respostas se tornam sempre as mesmas, o engajamento e motivação diminuem e reina uma sensação de ciclo vicioso muito desconfortável. Talentos são naturalmente desencorajados a ficarem na empresa e ninguém se atreve a correr riscos ou se entregar emocionalmente.

Ou seja, a falta de conhecimento ou a falsa sensação de conhecimento impedem a empresa de realmente desfrutar da diversidade e do pensamento crítico que vêm junto com a curiosidade e o incentivo ao conflito caloroso para tomar decisões.

Mas o que pode ser feito então?

A questão aqui não é se você, sócio, dono ou líder, sabe ou não sabe tudo sobre seu negócio. É sobre o QUANTO você NÃO sabe e sobre O QUÊ você deveria saber. O quanto antes se assumir uma postura baseada na curiosidade de quem não se sabe tudo, melhor será para o negócio.

Portanto, que tal refletir se você tem nutrido muitas certezas sobre o seu negócio. Se tem acreditado que seus mecanismos de saber das coisas são de fato relevantes para o próximo estágio de sua empresa. Que tal se dar o benefício da dúvida e começar a perguntar mais do que dar as respostas?

Espero que esse artigo te coloque nesse lugar de curiosidade. Onde ficam também o aprendizado e a inovação.

Um abraço e até mais!